Natal e Réveillon: cuidado com o seu fígado

                                      José Carlos Ferraz da Fonseca 
                 Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia).



Na “Santa ceia”, Jesus Cristo ofereceu aos seus apóstolos somente “pão e vinho”. Uma ceia muito espartana, tenho que concordar. Mas é claro que nas festas do ano novo a maioria dos leitores não repetirá a dieta à base de pão que Jesus e os apóstolos fizeram naquele momento de significado tão religioso. O pão será somente um complemento e quem gosta do líquido santo e precioso só beberá vinho. Tive um paciente com cirrose hepática alcoólica que gostava de dizer que só gostava de beber vinho tinto. Afirmava com toda convicção que tal bebida não fazia mal porque era igual ao sangue de Cristo: encarnado (vermelho), puro e milagroso. Escrevendo como médico e não filosofando, é difícil entender certas projeções dos viciados no álcool. 

Lembro de uma das novelas de Dias Gomes (dramaturgo brasileiro), em que uma das personagens chamava-se Dona Redonda. Alguém lembra? Pois é, ela explodiu de tanto comer, não sei se foi na passagem de ano, mas que ela explodiu, explodiu. Nas consultas médicas de dezembro, é comum que os meus pacientes no final tenham sempre uma pergunta arquitetada durante o dia e na ponta da língua: “Doutor José Carlos, posso comer e beber no Réveillon?” Com certeza, eles sabem o que faz mal, pois tenho como norma clínica explicar aos meus pacientes o que é bom e o que é ruim para a sua saúde. Fico na berlinda se respondo se pode ou não, pois adoro os quitutes da passagem de ano, menos qualquer coisa que contenha álcool. Infelizmente, as palavras “pena” ou “coitadinho” não existem no dicionário da minha especialidade. A qualidade de vida dos pacientes com qualquer doença do fígado depende muito mais dos próprios pacientes do que do médico que o assiste.

O que realmente faz mal para o fígado? Muito pouca coisa, se você não tem nenhuma doença hepática ou predisposição a tê-la. Todavia, se você tiver alguma doença no fígado ou predisposição e encontra-se em fase de tratamento, quase tudo faz mal, até um doce suspiro comido na hora errada. 

Começamos pelo excesso de bebidas alcoólicas. O dano ao fígado causado pelo álcool está estritamente relacionado à quantidade, freqüência e duração do tempo de consumo de álcool.  Se o leitor deste artigo, ou alguém bem próximo, beber diariamente 60-80 gramas de álcool (duas doses de cachaça ou uma de conhaque e mais duas latas de cerveja), por mais de 5 a 12 anos, provavelmente, terá grandes possibilidades, desde que seja suscetível, de desenvolver uma cirrose hepática alcoólica. Contudo, em muitos alcoólatras, a cirrose hepática nunca ocorre, mesmo após décadas de ingestão de álcool excessiva. Pronto: se você não tem nenhuma doença hepática, beba moderadamente no Réveillon e nada acontecerá ao seu fígado. Um outro aviso: cuidado, o álcool não faz mal só para o fígado. A ingestão abusiva pode fazer com que o machão extravase em público o seu lado feminino. Há mais problemas: tanto o homem como a mulher podem sofrer de estômago (gastrite, úlcera), de perda da potência sexual (homem) e da libido (homem, mulher), do pâncreas, do coração e dos nervos. Muito acabam perdendo o juízo, ocasionando os mais graves delitos, seja no trânsito ou em sua própria casa. Os crimes passionais são na maioria das vezes ocasionados pelo consumo exagerado de álcool.

Com relação aos quitutes do Réveillon, o que realmente faria mal para uma pessoa com o fígado sabidamente sadio? Sabemos que todos os sintomas apresentados pelo paciente após tal ceia  estariam relacionados com o estômago, vesícula biliar e o intestino, e não com o fígado. Neste caso, o fígado do “rei  ou rainha da gordura e do álcool” teria que trabalhar dez vezes mais para processar e eliminar os elementos nocivos contidos na ceia do Réveillon (gorduras, toxinas químicas, sal), nos petiscos (gorduras, substâncias cancerígenas, conservantes, toxinas químicas, sal) e bebida alcoólica (etanol). Em decorrência da alta concentração de colesterol nos petiscos e ceia, o fígado usaria esta superoferta de colesterol para produzir excessivamente uma substância chamada bile ou bílis (substância amarelo-esverdeada secretada pelo fígado), que seria eliminada para o duodeno (primeira porção intestino delgado) e intestino (mistura-se com os alimentos para ajudar na digestão). Parte da bile seria absorvida pelo estômago e daí provocaria boca amarga e com gosto de água de lavar espingarda ou de fel. Quem ainda não foi personagem desta história, que atire a primeira colherada de maionese.

Se você tem pedra na vesícula, aí a história é diferente. Depois dos comes e bebes do Réveillon, lá pelo fim da madrugada começa a sessão de gases incontroláveis e inconvenientes, boca amarga, cólica, o teto roda, existe uma sensação de que a barriga vai explodir (distensão abdominal), o guloso ou gulosa chama os filhos para se despedir e diz que desta não escapa. No dia seguinte, logo pela manhã o paciente refere intolerância a alimentos e diz com toda moral possível que nunca mais vai repetir o que fez ontem. 

Geralmente o almoço do dia primeiro é o que sobrou da véspera. E aí? Conheço muita gente que adora pegar os restos do peru ou porco (ossos do barão) que sobrou do jantar da véspera, colocar jambu, tucupi e oferecer no almoço o novo prato: “peru ou porco no tucupi”. Jambu e tucupi são produtos culinários típicos da Amazônia brasileira. Existem pessoas que afirmam que é um verdadeiro manjar dos deuses, ainda não ousei provar.  O tucupi é um dos produtos derivados da mandioca mais indigesto e erosivo da camada que envolve o estômago (mucosa) que eu já conheci na minha vida. Quer saber se você tem gastrite ou úlcera? Tome um gole de tucupi e a dor é imediata.



Um conselho aos que tenham alguma doença no fígado: continuem evitando excessos na comida e não se esqueçam que não podem beber quaisquer bebidas alcoólicas. Finalizando este artigo, sugiro a todos que na passagem do ano evitem comer e beber álcool em excesso, já que não existe uma droga capaz de proteger o seu fígado contra as nossas extravagâncias. Deixe que o seu fígado cumpra normalmente sua função e tenha uma melhor qualidade de vida em 2017. Um feliz natal e um ano novo com muita saúde. É o que desejo do fundo do meu fígado, digo coração, a todos meus leitores.
Barriga-d’água (ascite): suas causas e consequências


José Carlos Ferraz da Fonseca

Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia)


Paciente (sexo feminino, 54 anos) apresentando aumento do volume abdominal (barriga-d'água) em consequência da cirrose hepática (foto pertencente ao arquivo do autor).








Paciente (sexo masculino, 36 anos) com barriga-d'água em decorrência de problemas renais (foto gentilmente cedida pelo ex-editor do extinto jornal Correio Amazonense).








Paciente (sexo masculino, 28 anos) apresentando aumento do volume abdominal (barriga-d'água) em consequência da cirrose hepática pelos vírus das hepatites B e Delta. Nota-se cicatriz umbilical protusa (foto pertencente ao arquivo do autor).



Este artigo começa com a história de uma jovem paciente procedente do rio Purus (Estado do Amazonas, Brasil). Sua mãe procurou-me em Manaus no início dos anos noventa para consultá-la e contou a seguinte história: “Doutor, minha filha (14 anos) ficou de repente com o olho amarelo (icterícia), baldeia muito (vômitos), está com a urina escura e o farmacêutico (atendente de drogaria com 1º. grau incompleto, um dia até conheci a figura) disse que ela está grávida e com tirícia (icterícia). O maior problema é que ela está grávida mesmo, veja o tamanho do barrigão da menina”. Conversei com a garota e esta me informou que não menstruava há 6 meses (pacientes com doença hepática crônica raramente menstruam). Seria algum tipo de doença ictérica que ocorre durante a gravidez, pensei? Entretanto, logo após a inspeção clínica do abdome, verifiquei que a suposta gestante tinha somente uma barriga-d’água de bom tamanho, lembrando quase uma barriga de nove meses de gravidez. Falei para a mãe que sua filha não estava grávida e que tudo o que estava acontecendo seria provavelmente um problema crônico no fígado ocasionando a barriga-d’ água. Durante a consulta, o diálogo entre mãe e filha foi cômico e as palavras da mãe foram exatamente estas: “Diz pro teu namorado que o apelido dele agora vai ser Zé cacimba, só faz água”. Infelizmente, depois de todos os exames prestados, os resultados revelaram que a minha paciente realmente portava uma cirrose hepática descompensada, tendo como causa a infecção pelos vírus da hepatite B e Delta, doença e viroses comuns entre habitantes do rio Purus . Infelizmente, a paciente desta pequena história morreu seis meses após o diagnóstico.

Afinal, o que é barriga d’água? Simplesmente uma coleção de líquido acumulado no peritônio (membrana serosa que recobre as paredes do abdome e a superfície dos órgãos digestivos), cujo líquido pode ser seroso (secreção fluída e aquosa), sanguinolento (hemorrágico) ou quiloso (líquido leitoso contendo linfa e gordura). Este líquido geralmente livre e contido dentro da cavidade abdominal provém de processos inflamatórios, infecciosos, distúrbios circulatórios ou cancerígenos.

Quais seriam as principais causas de barriga d’água de origem infecciosa ou inflamatória? São dezenas. As mais importantes, contudo, por ordem de importância seriam: apendicite, úlcera péptica perfurada, perfuração intestinal por febre tifóide, ruptura da vesícula biliar (pedra na vesícula), diverticulite (doença inflamatória intestinal), tuberculose e sífilis. E as de origem circulatória, quais são? As mais importantes para o conhecimento do leitor seriam: cirrose hepática e biliar, insuficiência  cardíaca, trombose (coágulo em vaso sanguíneo), ruptura de aneurisma (dilatação de um vaso ou artéria) intra-abdominal, doenças das válvulas cardíacas (estenose mitral) e do pericárdio (camada que envolve o coração), vários tipos de câncer (tumores malignos do fígado e pâncreas, linfomas, leucemia). Outras causas menos comuns da barriga-d’água seriam: doenças renais e da tireóide, alimentação defeituosa e anemia por câncer.

O câncer pode provocar barriga-d’água? Sim e os tipos mais comuns seriam: tumores malignos do fígado e pâncreas, linfomas e leucemia. Como você pode ter observado, não é só cirrose hepática que provoca barriga-d’água...

Quais as condições médicas ou naturais que podem ser confundidas com a barriga-d’ água? Principalmente a gravidez ou falsa gravidez, cistos e tumores de ovário, cisto de pâncreas. Como se faz o diagnóstico de barriga-d’água? Na maioria dos casos, através de um bom exame clínico, ou através de um simples exame de ultra-sonografia do abdome.

Barriga-d’água tem tratamento e cura? Sim, se tratada devidamente à causa, principalmente as de origem infecciosa como a tuberculose intestinal e a apendicite. Por outro lado, em pacientes com barriga-d’água por cirrose hepática ou biliar, o tratamento com remédios e dieta reduz significativamente o volume abdominal por um certo período. Porém, o único meio de cura nesses pacientes seria o transplante hepático.
Vale a pena viver? Depende do seu fígado!
(Anônimo)


José Carlos Ferraz da Fonseca
Médico especialista em Doenças do Fígado (Hepatologia)



Imagem representando o imortal Prometeus sendo atacado por uma águia






Nada mais pontual do que iniciar este artigo lembrando o mito do semideus e imortal Prometeus, um dos Titãs da mitologia grega. Condenado por roubar o fogo dos céus e dá-lo à humanidade, recebeu como castigo de Zeus o sacrifício de ficar acorrentado a uma rocha no Cáucaso, onde diariamente uma grande águia bicava seu fígado. De acordo com a mitologia, parte de seu fígado era comido pela águia durante o dia, regenerando-se durante a noite. Ele sofreu essa tortura por muitos dias, anos e anos até ser libertado por Hércules. Na mitologia grega, Prometeus simboliza a força e a persistência contra a opressão.

O que existe de verdade na história do fígado de Prometeus apresentada na arena de um teatro pela primeira vez por Ésquilo na Grécia (século V antes de Cristo)? Tudo, apesar de ser puro simbolismo. Mesmo sendo imortal e nunca ter existido, o titã Prometeus tinha um fígado idêntico aos dos simples mortais, ou seja, capaz de se regenerar. Como Ésquilo sabia que o fígado de Prometeus podia se regenerar? Não tenho a mínima ideia e nem vou conjecturar o que aconteceu há mais ou menos 2500 anos. O que eu posso explicar cientificamente sobre a regeneração do fígado é o seguinte: durante a agressão aguda do fígado por determinados agentes (vírus, álcool, drogas), parte das células do fígado (hepatócitos) são destruídas. Os hepatócitos que não sofreram processo de destruição irão se regenerar totalmente, dando origem a novas células e, conseqüentemente, expansão do conjunto das células perdidas.

O melhor modelo para explicar a capacidade de regeneração do fígado acontece no transplante de fígado intervivos. Um familiar (pai, mãe, irmão, irmã, primo de 1º. grau) doa parte de seu fígado sadio que é removido e transplantado no familiar doente. Após o transplante, observa-se rapidamente um aumento do volume do fígado, tanto no doador como do receptor, caracterizando assim o processo de regeneração.

Sabendo que o fígado é o único órgão do nosso organismo capaz de se regenerar, pergunta-se: porque ele é tão importante para que tenhamos uma boa qualidade de vida? Veja, o fígado é o órgão interno mais durável do organismo, já que foi programado para viver funcionando normalmente por mais de 100 anos, diferentemente do que acontece com o coração, rins, pulmões e cérebro. Agora, se ele for agredido continuamente, seu tempo de sobrevida vai ser alterado e aí teremos que aguentar as conseqüências.

O que devemos fazer para que o nosso fígado continue funcionando normalmente. Basta seguir, sem ser compulsivo e fundamentalista, o que chamo aqui de: “as dez regras para um fígado feliz”.

A primeira regra e a mais importante na boa funcionalidade do seu fígado é não fazer da bebida alcoólica uma fuga para os seus problemas. A ingestão diária por um período longo de mais de 80 gramas de álcool (uma dose de cachaça ou vodca e mais duas latas de cerveja) constitui-se um alto de risco de doença hepática. O alcoolismo é considerado como uma das principais causas de cirrose hepática (fígado endurecido como pedra) no mundo. Se, no fim de semana, você gosta de uma caipirinha ou de uma cerveja estupidamente gelada, beba moderadamente. Com certeza, não vai lhe fazer mal, desde que o prezado leitor não tenha nenhum problema no fígado.

A segunda regra passa por sua atividade sexual. O uso de camisinha nas suas relações vai evitar que você adquira, por exemplo, o vírus da hepatite B (VHB), agente infeccioso de fácil transmissão sexual. Esse vírus é incriminado como a principal causa de cirrose hepática em nossa região. Se você não gosta de usar camisinha ou não dá tempo de usa-la, aí é outra história. Existe até vacina contra hepatite B e você pode se vacinar. Não existe vacina, contudo, para a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, tais como: sífilis, esquentamento ou gonorreia (blenorragia), vesículas dolorosas no pênis e vagina(herpes), crista de galo (condiloma acuminado) e mula (linfogranuloma venéreo).

A terceira regra está inserida no tratamento e controle de determinadas doenças que podem provocar problemas no fígado, tais como: obesidade mórbida, doenças da tireoide, insuficiência cardíaca, enfisema pulmonar, hepatite crônica B, C e D, diabetes tipo 2 associada a esteato-hepatite não alcoólica. Cientificamente, observa-se que parte dos pacientes adultos com diabetes tipo 2 tem um aumento significativo de doenças hepáticas, incluindo cirrose hepática, quando comparados com a população geral não-diabética. Pacientes diabéticos têm um risco aumentado em sete vezes de apresentar endurecimento do tecido do fígado (fibrose).

A quarta regra, das dez para que o seu fígado seja feliz, baseia-se no controle do seu peso corpóreo. O que acontece no fígado em consequência do aumento de peso? Deposição contínua de gordura no fígado, podendo ocasionar processo inflamatório agudo (hepatite) e levar a uma doença chamada de esteato-hepatite aguda (hepatite aguda por deposição de gordura). Se não controlada e tratada a obesidade, a esteato-hepatite aguda torna-se crônica e um percentual bastante significativo dos obesos desenvolverão uma cirrose hepática ao longo do tempo. Redução do peso (dieta, cirurgia) e uso de determinadas drogas podem controlar a referida doença.

A quinta regra para um bom funcionamento do seu fígado e do seu inimigo pessoal encontra-se no hábito da boa alimentação. Evite alimentos que contenham gordura animal (carne vermelha gorda, pele de frango, bacon, linguiça, queijo amarelo, manteiga) e frituras. Em decorrência da alta concentração de colesterol nesses alimentos, o fígado usaria esta superoferta de colesterol para produzir excessivamente uma substância chamada bile ou bílis (substância amarelo-esverdeada secretada pelo fígado), que seria eliminada para o duodeno (primeira porção intestino delgado) e intestino (mistura-se com os alimentos para ajudar na digestão). Parte da bile seria absorvida pelo estômago e daí provocaria boca amarga e com gosto de água de lavar espingarda ou de fel. Em razão da ingestão excessiva de alimentos gordurosos, ocorreria no sangue um aumento dos triglicérides e colesterol e, conseqüentemente, deposito de gordura nas células do fígado (hepatócitos), ocasionando assim a esteatose hepática. Coma bastante peixe e frango sem pele (grelhado, assado, cozido), frutas e verduras. Só fazem bem.

A sexta regra está explícita no erro cultural  da automedicação. O uso de determinadas drogas e ervas pode ocasionar ao seu fígado, desde uma simples hepatite aguda medicamentosa, morte por insuficiência hepática fulminante até a cirrose hepática. Evite tomar remédios sem prescrição médica e ervas indicadas pelos parentes, comadres e vizinhos. No estado do Pará, existe relato científico de mortes (hepatite fulminante) pelo uso do chá e cápsulas da “sacaca”, aquela que é considerada por alguns como a oitava maravilha do mundo. Em fevereiro de 2015 tive duas pacientes que fizeram quadro de hepatite aguda por uso de chá de sacaca. A mais idosa, 75 anos, desenvolveu quadro de hepatite grave e foi necessário interna-la em unidade de terapia intensiva. Felizmente, no presente momento, a referida paciente encontra-se muito bem.

A sétima regra está na retirada eletiva (cirurgia) das pedras da vesícula (cálculo biliar). As pedras na vesícula biliar podem comprometer o fígado? Claro que sim. Quando a vesícula biliar repleta de pedras apresenta processo inflamatório (colecistite aguda), existe uma tendência de obstruir a passagem de biles para o intestino. A bile não excretada reflui para o fígado, torna-se tóxica e vai ocasionar hepatite aguda. As bactérias responsáveis pela inflamação da vesícula biliar podem ascender para o fígado e daí podem provocar um quadro infeccioso agudo, geralmente grave, tendendo a formação de hepatite aguda infecciosa (bacteriana) e posteriormente de abscessos no fígado. Se não tratado, o paciente poderá morrer com infecção generalizada.

A oitava regra é bem atual. Não fume, o cigarro faz muito mal para o fígado. Os resultados de vários estudos revelam que o hábito de fumar acelera ou agrava uma doença do fígado pré-existente, principalmente se o fumante for portador de uma dessas doenças: esteato-hepatite aguda(processo inflamatório no fígado provocado por deposição de gordura), hepatite crônica e cirrose hepática pelos vírus das hepatites B e C ou outro qualquer tipo de hepatite crônica. Pacientes cirróticos fumantes, independentemente da causa, apresentam um risco muito grande de evolução para câncer primário de fígado.

A nona regra é ter que fazer transplante hepático se o seu fígado, de algum familiar ou de algum amigo não está mais funcionando (cirrose hepática em fase avançada e descompensada). Porque alguém precisaria fazer um transplante do fígado? É até simples explicar. É o tratamento de eleição de qualquer doença do fígado avançada, aguda ou crônica, não curável com outros tratamentos e que põe a vida do paciente em perigo ou induz a uma deterioração importante na sua qualidade de vida. Portanto, nada mais resta do que trocar o fígado doente e irrecuperável por um novo.

A última e décima regra é a mais importante de todas. Periodicamente, se você tem mais que 40 anos de idade, faça um exame clínico geral pelo menos uma vez por ano e assim o seu médico saberá como está funcionando o seu “precioso fígado”. Se tudo está bem com o seu fígado, ótimo, mas não o deixe de lado. Ele foi programado para viver mais de cem anos.
O que é hiperplasia nodular focal hepática?

José Carlos Ferraz da Fonseca


Médico especialista em doenças do fígado (Hepatologia)


Um dos diagnósticos que mais aterrorizam os pacientes denomina-se cientificamente de “hiperplasia nodular focal hepática”. Para o leigo e a principio, o termo “nodular” cheira a câncer. Claro, que nem sempre isto é verdade. Sabe-se que 99,9% da “hiperplasia nodular focal”, seja localizada no fígado, mama e outros órgãos, é benigna. Esse tipo de lesão hepática não progride para o câncer. Considera-se como o segundo tumor benigno mais comum do fígado.

Quais as principais causas da “hiperplasia nodular focal”? O uso de anticoncepcional oral e a gestação não são fatores etiológicos relacionados como o surgimento da “hiperplasia nodular”, contudo podem contribuir efetivamente para o seu crescimento. Pacientes que fazem uso constante de anticoncepcionais, tendem a ter a lesões maiores e mais vascularizadas.

O diagnóstico baseia-se em achados de forma incidental, obtido através de exames de imagens do fígado (ultrasonografia, tomografia, ressonância magnética). O médico frente a tal achado, precisa separar o joio de trigo, ou seja: identificar a possível origem da “hiperplasia nodular focal hepática”.

Afinal, o que é “hiperplasia nodular? Primeiro, seria importante explicar o que significa o termo “hiperplasia”. Nada mais que a proliferação e aumento na quantidade de células do fígado formando assim, nódulos focais. Na maioria dos casos, o nódulo é solitário, mede menos que 5 cm e acomete principalmente pacientes do sexo feminino.Tem maior incidência entre mulheres situadas entre a terceira e quinta década de vida.

Raramente a hiperplasia nodular focal provoca sinais ou sintomas clínicos. Dependendo do tamanho do nódulo, alguns pacientes queixam-se de dor em peso debaixo da última costela do lado direito do abdome anterior. A referida dor pose se irradiar para a “boca do estomago”. As complicações são raríssimas e as provas laboratoriais de função hepática são normais.

Existe tratamento para “hiperplasia nodular focal hepática”? Se o médico concluir que o aumento da lesão deve-se ao uso dos anticoncepcionais, geralmente ele sugere a suspensão do referido método anticoncepcional. Se a mulher estiver gestante, a gestação não precisa ser interrompida e deve ser levada até a concepção. Alguns nódulos podem crescer exageradamente e dependendo de sua extensão pode haver indicação cirúrgica, mas tal fato é raro.

Vitamina D e o fígado
José Carlos Ferraz da Fonseca
Médico especialista em doenças do fígado (Hepatologia)


Quando funciona a contento, o fígado tem a capacidade de sintetizar todas as vitaminas que o organismo recebe, seja através dos alimentos que consumimos, dos complexos vitamínicos que, algumas vezes, teimamos em ingerir em grandes quantidades ou pela exposição da pele ao sol (conversão fotoquímica para previtamina D3).

Sabemos que todas as vitaminas são necessárias ao nosso organismo para que possamos viver com saúde e sem problemas, citando, como exemplo, as vitaminas A, B, C, D, E e K. Destas, a vitamina D é muito importante, pois, em conjunto com o hormônio da paratireoide, mantém a concentração de cálcio e fosfato no organismo, favorecendo a estrutura dos ossos. Existem dois tipos de vitamina D: a vitamina D2 e D3. As principais fontes da vitamina D são: óleo de peixe, contido no salmão, sardinhas do mar e ovas de peixe; margarina; manteiga; leite; creme de leite; cogumelos; cereais, ingeridos no café da manhã. Além disso, a exposição ao sol faz com que o organismo produza vitamina D.

Nos últimos anos, diversos trabalhos científicos revelam que a deficiência da vitamina D, em pacientes com doença hepática crônica, pode contribuir para as formas mais graves e progressivas da doença, inclusive com evolução desfavorável para cirrose hepática.

 O déficit de vitamina D, associado à deficiência do cálcio no organismo, pode estar relacionado a várias doenças, e a mais importante delas é a osteodistrofia hepática, cujo conceito científico consiste em complicação tardia frequente nas doenças hepáticas crônicas, em que os pacientes, comumente, apresentam diminuição da densidade óssea,  caracterizada principalmente por osteoporose (massa óssea baixa) e fraturas ósseas espontâneas.

Estudos publicados nos Estados Unidos (ano 2010) revelam dados preocupantes relacionados à prevalência da deficiência de vitamina D em pacientes com doença hepática crônica. Nesse estudo americano, dos 109 pacientes investigados, 92,5% apresentavam vários graus de deficiência de vitamina D no sangue. Foi observado, ainda, que o grupo de pacientes portadores de cirrose hepática apresentava índices maiores de deficiência do que o observado entre pacientes não cirróticos (29,5% versus 14,15%). Outro dado relevante a ser destacado dessa pesquisa foi que, entre as mulheres afro-americanas, o índice de deficiência da vitamina D teve maior prevalência.

Entre pacientes com hepatite crônica ou cirrose hepática pelo vírus da hepatite C (VHC), os níveis do déficit de vitamina D no sangue são gritantes. Na minha experiência, de 154 casos analisados (dados não publicados), 62,7% apresentavam-se com déficit acentuado dessa vitamina, 28,4% com déficit moderado, 6,4% leve e, apenas, 2,5% com níveis normais de vitamina D. Os resultados encontrados na minha casuística não se diferenciam de outros estudos publicados. Entre pacientes de origem americana com cirrose pelo VHC, foi observado que: 30,2% tinham déficit acentuado, 48,8% déficit moderado e 16,3% apresentavam leve déficit de vitamina D.

Em pacientes com doença hepática crônica pelo VHC e que apresentam déficit de vitamina D, é observado um maior comprometimento hepático, caracterizado por alto grau de necrose (destruição do tecido hepático) e exacerbação da progressão para fibrose hepática. A vitamina D, no organismo, desempenha várias ações, mas a mais importante é a ação anti-inflamatória que exerce. A simples reposição terapêutica da vitamina D entre estes pacientes, por um período nunca inferior a seis meses, ajuda a melhorar a função hepática. Portanto recomenda-se aos pacientes portadores de qualquer doença hepática crônica (hepatite crônica autoimune, esteato-hepatite não alcoólica, cirrose hepática, cirrose biliar, colangite esclerosante e colestase crônica) a dosagem no sangue da vitamina D. Se o paciente apresentar queda dos níveis sanguíneos de vitamina D, o médico assistente deve repor esta vitamina imediatamente. A simples reposição da vitamina D, por via oral, melhora a qualidade de vida entre estes pacientes.

Estudos atuais sugerem que as células cancerígenas produzidas por determinados tumores, principalmente o carcinoma hepático, são capazes de inibir os efeitos da vitamina D em nosso organismo. Assim, a vitamina D tem sido indicada no tratamento coadjuvante dos tumores cancerígenos de origem hepática. A partir de estudos experimentais, sabe-se que a vitamina D3 é capaz de inibir a invasão de células cancerígenas em ratos. Com base nesses estudos e outros, a indicação da vitamina D como profilático de determinados tumores começa a ser investigada. Contudo os resultados ainda são bastante preliminares, então, por favor, não se automedique com qualquer tipo de remédio sem antes ouvir o seu médico, ele é a pessoa certa para medicá-lo.

Várias teorias tentam explicar o déficit de vitamina D encontrado frequentemente entre pacientes com doença hepática crônica, principalmente entre portadores de hepatopatia crônica pelo VHC. Todavia o que temos de mais concreto é que, entre pacientes cirróticos, ocorre uma redução da exposição às fontes de vitamina D (raios de sol, dieta). Outros fatores, como a má absorção da vitamina D no intestino e a redução da produção de albumina pelo fígado cirrótico, podem gerar o déficit da vitamina D.